sábado, 6 de dezembro de 2014

Bariátricos Bem Informados

Obesidade, cirurgia e emagrecimento
O que acontece com as pessoas durante esses processos? E a mudança de ser gordo para ser magro pela cirurgia bariátrica, pode gerar transtornos psicológicos?
Por Agência Notisa de jornalismo científico
Os tratamentos que visam a combater a obesidade devem contemplar a existência de dificuldades psicológicas que podem atrapalhar a eficácia dos resultados.
Mudança drástica:
Estudos têm mostrado que a cirurgia bariátrica traz mudanças psicológicas, sociais e emocionais rápidas.
Uma pesquisa publicada ano passado no periódico internacional Surgery for Obesity and Related Diseases corrobora essa ideia. Ao avaliar a qualidade de vida e a autopercepção de imagem corporal de 200 pacientes antes da cirurgia e 20, 40 e 92 semanas após a intervenção, David Sarwer, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e colegas observaram que de forma geral os pacientes apresentam significativa melhora na qualidade de vida e na imagem corporal nos primeiros meses após a operação. Esses benefícios, segundo eles, se mantêm geralmente até o segundo ano do pós-operatório.
Por outro lado, outras investigações têm apontado que problemas psicológicos podem se desenvolver após a cirurgia. Por exemplo, segundo um estudo de Ronis Magdaleno e equipe, do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, embora o reencontro com o corpo após o procedimento cirúrgico seja vivenciado pelos pacientes como um meio de reintegração social, um sentimento de desamparo também é frequente nesse período. Tal desamparo, segundo os autores, pode levar a sintomas fóbicos. Desequilíbrios nas relações familiares e conjugais também podem ocorrer e contribuem para desencorajar a continuidade do tratamento. Além disso, alguns pacientes podem buscar constantemente cirurgias plásticas para corrigir o excesso de flacidez e as cicatrizes. Os pesquisadores chegaram a essas evidências após entrevistar qualitativamente sete mulheres que haviam sido operadas entre um ano e meio e três anos. A pesquisa em questão foi publicada em março deste ano na Obesity surgery.
Dados diversos, como os apresentados, são fonte para questionamentos. Qual a importância do acompanhamento psicológico no pós-operatório de cirurgias bariátricas? Será que todos os pacientes necessitam desse suporte? Afinal, é preciso aprender a "pensar" como magro?
Para o médico Adriano Segal, coordenador do departamento de Psiquiatria da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), o "acompanhamento no pós-operatório não é mandatório para todos os pacientes, apenas para aqueles que apresentavam um transtorno psiquiátrico [aí, o acompanhamento seria psiquiátrico] ou psicológico no pré-operatório ou para aqueles que venham a apresentar um problema depois da operação, causado por ela ou não". Ele destaca, entretanto, que uma minoria dos pacientes se enquadra nessa segunda categoria, ou seja, desenvolvem problemas em função da cirurgia.
Além disso, o psiquiatra explica que a "ideia de pensar como magro ou como gordo não procede, já que nem todos os magros comem pouco nem muito menos de um modo saudável e nem todo gordo come em grande excesso e de modo não saudável. Esta generalização é uma das fontes do grande preconceito contra o gordo e deve ser prontamente abandonada".
Por isso, Adriano considera que os médicos devem esclarecer todos os aspectos relativos à obesidade, à técnica cirúrgica, ao emagrecimento e aos cuidados pós-operatórios ainda no pré-operatório. "No pós-operatório, precisamos ficar atentos à adesão ao tratamento e a problemas psiquiátricos que porventura venham a ocorrer. Neste caso, deve-se instituir o tratamento mais adequado para o caso", afirma. (Veja quadro sobre a importância do aconselhamento médico).
Oferecer respostas mágicas e miraculosas é sequestrar do indivíduo a magia da vivência psicoterápica, quando são mobilizadas forças mentais e emocionais que o asseguram a lidar com a vida, sendo que a obesidade só é uma parte dela
Na cirurgia de redução de estômago, considerada um tratamento definitivo, é aconselhável acompanhamento psicológico antes e depois do procedimento.
Retorno ao convívio social:
Quanto aos problemas emocionais e de relacionamento que alguns estudos têm apontado no pós-operatório, o psiquiatra afirma que mesmo que isso fosse uma verdade absoluta, ou seja, "se houvesse a relação causa-efeito que alguns gostam de enxergar nas entrelinhas, seria um dado que, isoladamente, serviria apenas para ficarmos atentos, já que não é razoável imaginarmos que é melhor um sujeito ficar casado e obeso mórbido do que separado".
Ele explica, entretanto, que alguns desses eventos são apenas marginalmente mais frequentes nessa população do que na população geral, ou seja, a cirurgia bariátrica não implica em risco maior nestas áreas.
Segundo Adriano, a percepção de que há um número aumentado desses eventos em pacientes que passaram por cirurgia bariátrica é causada pelo fato de que "alguns pacientes podem ter quadros psiquiátricos que se manifestavam menos gravemente devido à própria dificuldade mecânica que a obesidade causava. Também pode acontecer que quadros fóbicos, que antes não eram nítidos [pois obesos mórbidos saem pouco, mesmo], passam a ficar mais chamativos quando se espera que a pessoa comece a sair".
Porém, ele lembra que com relação ao consumo de álcool é preciso mais atenção, pois de fato a cirurgia pode influenciar de forma negativa nesse caso. "Depois de algumas técnicas cirúrgicas, ingerir bebidas alcoólicas é muito mais arriscado e lesivo e isso deve ser exaustivamente orientado no pré-operatório e observado no pós-operatório", alerta.
A adesão ao tratamento clínico, para Adriano, é um dos principais problemas no pós-operatório, pois, segundo ele, uma grande parte "foge". Porém, ele destaca que essa fuga é comum em qualquer especialidade que compõe a equipe. "Alguns pacientes retornam apenas quando estão doentes (às vezes, muito!)", ressalta.
Essa dificuldade de dar continuidade ao acompanhamento também é observada na psicoterapia. Estudos mostram que embora os pacientes reconheçam sua importância, com frequência não a fazem ou a abandonam.
Para Ana Cristina Benevides Pinto, psicoterapeuta do Programa Transdisciplinar de Tratamento da Obesidade do Centro de Tratamento e Integração do Ser (Centiser) de Fortaleza (CE), os pacientes veem essa terapia como uma importante aliada no combate à obesidade e na reestruturação da sua vida. A psicóloga explica que o acesso às diversas informações faz que muitos pacientes reconheçam a importância da psicoterapia como subsídio para lidar com a ansiedade, que, via de regra, é identificada como a causa psicológica da obesidade.
"Quando o processo psicoterápico avança, esta compreensão amplia-se bastante levando o paciente a compreender a conexão entre fatos e afeições, numa fluência extinta de explicações de causa e efeito, ao perceber que as partes não subsistem sozinhas, mas compõem um todo", acrescenta Ana.
Para a especialista, a partir desta perspectiva, torna-se mais viável, pela exclusão de vilões e vítimas, o reconhecimento do paciente como autor e ator da sua própria história, portanto, capaz de estabelecer mudanças oriundas do seu desejo interno.
A especialista lembra que o modo como a obesidade se instalou na vida de uma pessoa faz toda a diferença. "O percurso psicoterapêutico de um paciente adulto que foi uma criança obesa é diferente daquele que se tornou obeso na adolescência ou na vida adulta, como é diferente se foi após um trauma, por exemplo, um abuso sexual, ou se foi atrelado ao alcoolismo ou durante a gravidez. A história vital do paciente é condição sine qua non para a modificação da estrutura do ser no mundo", afirma.
Fonte: Bariátricos Bem Informados

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